A sociedade deriva do sexo, das relações reprodutivas. Enquanto unidades
de trabalho, os primeiros bandos tribais humanos mantiveram-se unidos
pelos laços entre casais e grupos mamíferos (as emoções impressas de
afeição e confiança). No centro, o eixo central, encontrava-se a ternura
orgásmica – ato partilhado, no acasalamento, do amor genital. Dele
irradiou a ternura “sublimada” da relação entre pai e filho, irmão e
irmã, e tios, tias e avós, toda a “família alargada”, ou bando
caçador/coletor de alimentos.
O Estado conquistador, e a
subsequente fissão da sociedade em classes distintas de privilegiados e
carentes, criou a pobreza. Enquanto instituição humana, a pobreza deriva
da conquista, da formação de governos (o bando guerreiro invasor que
ficava para reger as suas conquistas) e da instituição de “leis”
perpetuando a divisão classista entre Invasores e Invadidos.
Como
qualquer outro primata, o ser humano contém circuitos neurogenéticos
prontos para serem impressos por laços de casal e laços de bando. O
objetivo evolucionário destes laços continua a ser classicamente
mamífero: assegurar a biossobrevivência e o status do bando, além de
programar a maioria das sementes com os comportamentos heterossexuais
reprodutivos necessários à sobrevivência do bando, o que assegura por
sua vez a biossobrevivência das gerações futuras.
A ascensão do
Estado conquistador, o Estado feudal, e eventualmente do Estado
capitalista moderno, minou e subverteu progressivamente os laços tribais
de bando (“a família alargada”). Na nação capitalista mais avançada, os
EUA, restam muito poucos destes laços tribais. Muito poucos cidadãos
americanos se deterão para dar boléias ou esmolas aos pobres, não
confiando sequer nos vizinhos. A maioria nem sequer conhece os vizinhos.
Os comportamentos normais de bando, como a confiança, a solidariedade, a
afeição, etc., passíveis ainda de serem encontrados nas nações feudais,
encontram-se aqui atrofiados. A raiz das célebres “anomias”,
“ansiedades”, “alienações”, etc., da sociedade capitalista encontra-se
nesta ausência de normais laços de bando.
Falando em termos
etológicos, os circuitos onde normalmente são impressos os laços de
bando sobrevivem ainda. (Poderíamos exprimir o mesmo pensamento em
linguagem psicológica dizendo que a necessidade de assegurar a
biossobrevivência se mantém ainda). Esta constante mamífera deve ser
satisfeita, e numa sociedade abstrata essa satisfação torna-se também
abstrata.
Na sociedade capitalista, o dinheiro de papel torna-se a impressão da biossobrevivência.
William
S. Burroughs comparou o capitalismo ao vício da heroína, assinalando os
terríveis paralelos: o junkie precisa de doses regulares; o cidadão
capitalista precisa igualmente de receber injeções regulares de
dinheiro. Se não tiver droga, o viciado transforma-se num feixe
espasmódico de ansiedades; se não tiver dinheiro, o cidadão capitalista
atravessa um trauma de carência em tudo semelhante. Quando a droga
escasseia, os junkies comportam-se de forma desesperada, chegando ao
ponto de roubar e mesmo matar. Se o dinheiro escasseia, o cidadão
capitalista também é capaz de roubar e matar.
Segundo o dr.
Timothy Leary, as drogas opiáceas funcionam como neurotransmissores do
circuito da biossobrevivência, isto é, ativam as redes neuronais
relacionadas com os laços mãe-filho. (Em termos de psicologia freudiana
pré-neurológica, o junkie regressa ao êxtase infantil no regaço da
Mãe
Ópio). Numa sociedade desprovida dos normais laços mamíferos de bando, o
dinheiro é sujeito a uma impressão semelhante, através do
condicionamento, sobre os reflexos infantis, de uma série de associações
aprendidas. O cidadão capitalista aprende neurologicamente que dinheiro
equivale a segurança e falta de dinheiro equivale a insegurança.
Muito
cedo na evolução hominídea, a ansiedade da separação infantil (o medo
de perder a Mãe toda-importante) generalizou-se à ansiedade da separação
tribal. Quem fosse expulso da tribo por comportamento delinqüente ou
anti-social experimentava verdadeira ansiedade de biossobrevivência. (Em
condições primitivas, uma tribo possui uma capacidade de sobrevivência
muito superior à de um indivíduo só. À época, o ostracismo significava
geralmente a morte, assim como o ostracismo da mãe pode significar a
morte da criança.)
Já que, na sociedade capitalista, o dinheiro
substituiu a tribo, a maioria dos cidadãos imprimiu no dinheiro as
emoções mamíferas tradicionalmente associadas aos laços de sobrevivência
filho-mãe e dos bandos individuais. Esta impressão é mantida por
associações condicionadas criadas por experiências de privação real. Nas
sociedades capitalistas, antes de surgir a segurança social [no Brasil,
assistência social] as pessoas morriam mesmo, e em grande número, por
carência de dinheiro; ainda hoje isso sucede ocasionalmente entre os
muito ignorantes, os muito tímidos ou os muito velhos. (Por exemplo, há
alguns anos, um casal idoso da cidade de Buffalo morreu congelado no mês
de janeiro, quando a companhia local lhes corou o aquecimento por falta
de pagamento da conta de eletricidade.)
A observação, que fazem
os europeus, de que os americanos são “loucos por dinheiro” significa
simplesmente que a abstração capitalista e o declínio da tribo se
encontram mais avançados aqui do que nos estados capitalistas europeus.
Carente
de dinheiro, o americano vagueia como um lunático possesso. A
“ansiedade”, a “anomia”, a “alienação”, etc., vão crescendo
exponencialmente, reforçadas por reais privações de segurança. Nas
sociedades menos abstratas, os pobres partilham os laços de bando e
“amam-se” uns aos outros (a nível de aldeia). Carentes de quaisquer
laços de bando, e viciados apenas em dinheiro, os americanos pobres
odeiam-se uns aos outros. Isto explica a observação paradoxal, que
muitos comentaristas fizeram, de como nas sociedades tradicionais a
pobreza conserva ainda a sua dignidade e mesmo algum orgulho, mas surge
na América como desonrosa e vergonhosa. Na realidade, os americanos
pobres não se odeiam apenas uns aos outros; freqüentemente, e talvez em
geral, eles odeiam-se a si próprios.
Esses fatos da neuroeconomia
encontram-se de tal forma carregados de dor e embaraço que a maioria
dos americanos se recusa pura e simplesmente a discuti-los. O
puritanismo sexual do século XIX transformou-se no puritanismo
monetário. Pelo menos entre o terço mais avant da população, as pessoas
conseguem falar muito explicitamente sobre as vertentes fetichistas das
suas impressões sexuais (“Sinto-me pleno quando uso a roupa interior da
minha mulher”, ou coisas do gênero), mas uma fraqueza equivalente sobre
as nossas necessidades monetárias faz gelar a conversa, podendo mesmo
esvaziar a sala.
Por detrás do embaraço e dor superficiais encontra-se o terror mamífero máximo: a ansiedade da biossobrevivência.
A
mobilidade das sociedades modernas faz aumentar ainda mais esta
síndrome de ansiedade monetária. Durante a depressão dos anos 30, por
exemplo, muitas mercearias e outras “lojas de esquina” permitiram aos
seus clientes a acumulação de grandes contas, por vezes durante meses a
fio. Este procedimento baseava-se nos últimos farrapos dos tradicionais
laços tribais e no fato de, nessa altura, há 40 anos, quase toda a gente
das mesmas redondezas se conhecer. Hoje isso não aconteceria. Vivemos,
como diz um romance, “num mundo cheio de estranhos”.
No primeiro
capítulo de The Confidence Man, Melville contrasta o “fanático
religioso” que carrega um cartaz dizendo “AMAI-VOS UNS AOS OUTROS” com
os comerciantes cujos avisos dizem “NÃO FAÇO FIADO”. A ideia desta
ironia era fazer-nos refletir sobre a inquieta mistura de cristianismo e
capitalismo na América do século XIX – cristianismo esse que, como o
budismo e as outras religiões pós-urbanas, parece ser em grande medida
uma tentativa, a nível místico, de recriação dos laços tribais no seio
da era “civilizada” (isto é, imperialista). A segurança social
representa a tentativa de falsificação desses laços por parte do Estado
(de forma mesquinha e paranóica, de acordo com o espírito da lei
capitalista). O totalitarismo surge como a erupção, possuída de fúria
assassina, da mesma tentativa de converter o estado num nexus tribal de
confiança mútua e apoio à biossobrevivência.
Quando a filosofia
libertária surgiu na América, ela representava duas tendências
principais, que os libertários modernos parecem ter esquecido –
imprudentemente, caso se provar a justeza da análise acima feita.
Refiro-me à ênfase na associação voluntária – a retribalização a um
nível superior, através de objetivos evolucionários partilhados – e nas
moedas alternativas. As associações voluntárias, ou comunas, desprovidas
de moeda alternativa são rapidamente absorvidas pelo nexus da moeda
capitalista. As associações voluntárias dispondo de moeda alternativa,
abertamente declarada, são empurradas para os tribunais e destruídas. É
possível que, tal como acontece em Illuminatus!, existam realmente
associações voluntárias usando moedas secretas ou dissimuladas, a julgar
por indícios ou códigos em algumas publicações libertárias de direita.
Nas
condições presentes, nenhuma forma de libertarianismo ou anarquismo
(incluindo o anarco capitalismo e o anarco-comunismo) pode competir
eficazmente com o estado do bem estar social [welfare state, aqui no
Brasil representado pelo Governo Lula] ou o totalitarismo.
As
práticas atuais do bem estar social resultaram de 70 anos de lutas entre
liberais e conservadores, tendo estes últimos vencido a maioria das
batalhas. O sistema funciona de modo a fazer crescer a síndrome do
vício. O desempregado recebe uma pequena dose de dinheiro no princípio
do mês, muito bem calculada para sustentar um avarento extremamente
frugal até por volta do dia 10 desse mês. Mediante a dura experiência, o
beneficiário do bem estar social aprende a fazer render a dose até o
dia 15, ou talvez mesmo até o dia 20. O resto do mês é passado sofrendo
de aguda ansiedade de biossobrevivência. Como qualquer traficante ou
condicionador comportamental sabe, este período de privação é que
sustenta o ciclo todo. No primeiro dia do mês seguinte vem outra dose de
dinheiro, e todo o drama recomeça.
O rol de beneficiários do
desemprego não para de crescer, já que – apesar da maior redundância e
ineficácia – a tendência do industrialismo continua a ser, como diz
Buckminster Fuller, fazer-mais com-menos e a tudo-tornar efêmero
(omni-ephemerize,[2]). A cada nova década, haverá cada vez menos
empregos e cada vez mais pessoas dependentes do bem estar social. (Já
hoje, 0,5 por cento da população detém setenta por cento da riqueza,
deixando os outros 99,5 por cento para competirem violentamente pelo
restante). O resultado final poderá muito bem ser uma sociedade
totalmente condicionada, motivada apenas pelo vício neuro-químico do
dinheiro.
Para medir o seu progresso em direção a este estado,
tente o leitor imaginar vividamente o que faria se amanhã todo o seu
dinheiro e fontes de rendimento desaparecessem.
É importante
termos bem presente que estamos aqui a discutir comportamentos mamíferos
tradicionais. Em pesquisas recentes, alguns chimpanzés foram ensinados a
usar dinheiro. Indicam os relatórios que eles desenvolveram atitudes
“americanas” normais para com esses ícones misteriosamente poderosos. A
Pirâmide dos Illuminati, que vem impressa nas notas de um dólar, e
similares emblemas “mágicos”, como a Fleur de Lys, a suástica, a águia
bicéfala, estrelas, luas, sóis, etc., com que outras nações acharam por
bem decorar as suas notas e documentos de estado, são intrínsecos à
“fantasmagoria” do monopólio que o Estado detém sobre o maná, ou energia
psíquica. Temos aqui dois pedaços de papel verde; um é dinheiro, o
outro não. A diferença é o primeiro ter sido “abençoado” pelos
feiticeiros do tesouro.
O trabalhador capitalista vive num estado
de ansiedade perpétua, em tudo semelhante ao do viciado em opiáceos.
Originalmente, a segurança da biossobrevivência, a neuroquímica da
sensação de segurança, encontra-se sempre ligada a um poder externo.
Esta cadeia condicionada dinheiro equivale a segurança, falta de
dinheiro equivale a terror é reforçada sempre que vemos alguém ser
“despedido” ou vivendo na miséria. Psicologicamente, este estado pode se
caracterizar como paranóia clínica de baixo grau. Politicamente, a
manifestação deste desequilíbrio neuroquímico é conhecida por Fascismo: a
mentalidade Archie Bunker(3)/Arnold Schickelgruber(4)/Richard Nixon.
Como
diz Leary, “A nossa vida social é agora dominada por restrições que o
medo e a raiva impõem à liberdade (...). O medo e a violência restritiva
podem tornar-se prazeres viciantes, reforçados por dirigentes
esquizofrênicos e um sistema econômico que depende da restrição da
liberdade, da produção de medo e do incitamento ao comportamento
violento”.
Na metáfora perfeita de Desmond Morris, o macaco nu
comporta-se tal qual um animal de zoológico: a essência da experiência
da jaula é o desespero. No nosso caso, as grades da jaula são as
intangíveis regras impressas no jogo: os “grilhões forjados pela mente”
de Blake. Somos literalmente o ceguinho que está a ser roubado.
Abandonamos literalmente os nossos sentidos. O ícone incondicional, o
dinheiro-símbolo, controla totalmente o nosso bem estar mental.
Era
aparentemente isto o que Norman O. Brown tentava explicar nas suas
obras oculto-freudianas sobre a destruição da nossa “natureza polimorfa”
(o êxtase natural do corpo) no processo de condicionamento do sexo
sublimado (os laços de bando) em jogos sociais como o dinheiro. A
Ressurreição do Corpo prevista por Brown só poderá acontecer através da
mutação neurossomática, ou, como lhe chama Leary, engenharia hedônica.
Historicamente, os únicos grupos que lograram libertar-se efetivamente
da ansiedade do jogo social foram: 1) as aristocracias absolutamente
seguras, livres para explorar os vários prazeres “mentais” e “físicos”; e
2) as comunas de pobreza voluntária, uma forma de retribalização
alcançada através da pura força de vontade.
À semelhança dos
outros idealistas de Esquerda e de Direita, os libertários sofrem
geralmente de uma dolorosa percepção do horrendo fosso que separa os
seus objetivos evolucionários da presente e triste realidade. Esta
sensação complica enormemente a resolução da sua própria síndrome de
ansiedade monetária. Como resultado, virtualmente todas essas pessoas
sentem uma culpa intensa relativa ao modo como adquirem o dinheiro
necessário para sobreviver no mundo de macacos domesticados que nos
rodeia.
“Ele se vendeu”, “Ela se vendeu”, “Eu me vendi”, são
acusações ouvidas diariamente em todas os grupos idealistas. Qualquer
processo de “fazer dinheiro” expõe-nos automaticamente às vibrações
culpabilizantes de uma das facções, da mesma forma que, paradoxalmente,
nos livra de mais vibrações culpabilizantes oriundas da outra facção. O
Catch-22 (5), a Ligação Dupla, O Princípio SNAFU (6), etc. não passam de
extensões da ratoeira neuroeconômica básica: Não É Possível Viver Sem
Dinheiro.
Como concluiu Joseph Labadie, “A pobreza transforma-nos a todos em covardes”.
Em
última análise, existe um certo prazer em suportar a pobreza. É como o
prazer de sobreviver ao desgosto e luto causados pela morte de um ente
querido; o prazer que sentia Hemingway em manter se firme e continuar a
disparar sobre o leão que carregava; o prazer que sente o santo em
perdoar aos seus perseguidores. Não se trata de masoquismo mas sim de
orgulho: fui mais forte do julgava possível. “Não chorei nem desatei aos
gritos”. Foi esta a alegria sentida por Nietszche e Gurdjieff ao
ignorarem as suas doenças dolorosas para só escreverem sobre os estados
“despertos”, ultrapassando todos os laços e emoções.
A paranóia
direitista sobre o dinheiro de papel (as várias teorias conspiratórias
sobre a manipulação da oferta e a retirada de moeda) será sempre
epidêmica nas sociedades capitalistas. Os junkies nutrem mitos do gênero
sobre os traficantes.
São alimentos autênticos, roupas
autênticas e abrigos autênticos que são ameaçados quando o dinheiro é
suprimido, ainda que por pouco tempo, assim como é autêntica a privação
que ocorre quando o dinheiro é suprimido durante qualquer período de
tempo. O macaco domesticado é apanhado num jogo de símbolos mentais, e a
armadilha é mortal.
Existe uma espécie de prazer masoquista em
analisar um assunto doloroso em profundidade, em todas as ramificações e
complexidades dos seus labirínticos tormentos. Existe algo deste gênero
subjacente à “objetividade” de Marx, Veblen, Freud, Brooks, Adams.
Estes autores parecem querer assegurar-nos, e a si próprios também, que
“Por pior que a coisa seja, pelo menos conseguimos enfrenta-la sem
gritar”.
“Só aqueles que beberam da mesma taça nos conhecem”,
disse Solzhenitsyn. Referia-se à prisão e não à pobreza, mas as duas
experiências assemelham-se enquanto castigos tradicionais para a
dissidência. Enchemo-nos de orgulho por havermos conseguido suportá-los,
caso consigamos sobreviver.
Uma crença muito difundida sugere
que a contracultura dos anos 60 foi espancada até a morte pelos bastões
da polícia, rusgas antidroga e outros tipos de violência direta. A minha
impressão é que a deixaram simplesmente morrer de fome. O fluxo de
dinheiro foi cortado e, após privações suficientes, os sobreviventes
treparam no primeiro salva-vidas capitalista que passou por perto.
Jack
London escreveu que o capitalismo tem o seu próprio céu (a riqueza) e o
seu próprio inferno (a pobreza). “E o inferno é bem verdadeiro”,
escreveu, baseando-se na sua amarga experiência pessoal.
Se, na
melhor das hipóteses, a paternidade é uma tarefa problemática, então no
capitalismo ela se torna um trabalho de herói. Atualmente, quando o
fluxo de dinheiro é cortado, o pai de família americano experimenta
ansiedade múltipla: medo por si e medo pelos que o amam e nele confiam.
Só o capitão de um navio que naufraga conhece esta vertigem, esta chaga.
Robert Anton Wilson